Animal de estimação: companheiro ou mais que isso?

Ter um animal de estimação, como cachorro, gato ou até cavalo pode beneficiar a saúde e ajudar no tratamento de doenças físicas ou mentais. Essa é uma das conclusões da 9ª Conferência Internacional sobre Interações Homem-Animal, no Rio de Janeiro.
A utilização de animais em terapia é defendida pelo americano Dennis Turner, professor da faculdade de veterinária de Zurique, na Suíça, que há pelo menos 10 anos tenta convencer autoridades a investir em programas de tratamento e pesquisas sobre o assunto.
Segundo Turner, fundador da Associação Internacional das Organizações de Interação Homem-Animal, animais podem atuar como terapeutas para crianças, idosos, jovens infratores, deficientes físicos e mentais e até casais em crise. Ter um animal em casa significa ser recebido e felicitado com a maior alegria do mundo, como se somente a presença do dono e um breve afago resolvesse todos os problemas do universo e trouxesse tanta felicidade como se não coubesse naquele corpinho pulando na perna e babando ansioso por um agrado.
Esse amor incondicional que os animais têm pelos donos, acrescentado ao efeito relaxante que é acariciar o seu animalzinho de estimação traz efeitos clínicos iguais aos da meditação: Relaxamento muscular, redução da pressão arterial e inibição do estresse.

Um hospital da Inglaterra pesquisou o efeito de cães em pacientes cardíacos que tinham tido um primeiro ataque cardíaco e os dividiu em 2 grupos (com e sem cães de estimação). Após 5 anos da pesquisa detectou-se que o grupo com animais tinha 3 vezes menos chance de um segundo ataque que o outro grupo. Supõe-se que o efeito anti-estresse aliado ao fato do proprietário de um animal exercitar-se mais (para passear e cuidar do seu pet) traga estes benefícios. Resultados semelhantes são obtidos com outras espécies animais.

No caso de casais em crise ou com problemas familiares temos observado que os animais fazem com que as pessoas passem mais tempo brincando (modulando o humor para melhor) e consequentemente menos tempo brigando. As famílias com animais tendem a ser mais unidas e aprendem a ser mais pacientes e compreensivas com os animais e com as pessoas, afinal se um marido entende que o cão pode sujar o seu tapete preferido, porque não entenderia sua esposa que deixou a toalha molhada justo do seu lado da cama?
Além disso, muitas crises conjugais são resultado de estados depressivos de um dos parceiros que, como veremos a seguir também podem ser curados por estes remédios com 4 patas. Imagine alguém chegando em casa após um dia de trabalho estafante e ser recebido pelo cônjuge de mal humor reclamando do atraso. Quando se tem um cão
não corremos este risco, pois sempre seremos recebidos de bom humor e com uma energia juvenil, daquele que escuta de longe o barulho do dono, sente seu cheiro por debaixo da porta e já esta a postos balançando o rabinho de língua de fora, esperando só a porta se abrir para externar seu afeto. Essa atitude acaba quebrando o clima sério onde se poderia formar uma discussão em família.

De acordo com o IBOPE e do site Petsite (www.petsite.com.br), 59% da população cria um bicho em casa.
Pesquisas demonstram que pessoas que possuem animais têm mais empatia, 98% falam com eles, 78% acham que eles compreendem seus sentimentos e 28% confiam plenamente em seus cães (porcentagem maior que nos seus próprios amigos da espécie humana).

No caso de crianças infratoras, animais agem tanto preventivamente como na terapia de recuperação. Pesquisas feitas com presidiários masculinos demonstram que mais de 80% deles cometeram atos de grande brutalidade contra animais na infância.
Brincar e fazer tarefas com ajuda de animais faz as crianças com problemas comportamentais ou com rupturas nos laços familiares esquecerem de seus problemas particulares, desenvolve o senso de compaixão (nada mais vulnerável que um bichinho que não pode falar, pedir ou reclamar), traz de volta a auto-estima perdida dentro de educações desequilibradas pois o animal não compete com a criança, sempre se submete ou colabora com ela no desempenho das tarefas e não impõe condições para brincar ou demonstrar seu afeto. Além disso o relacionamento com animais vai mostrar que eles sentem dor, têm sentimentos parecidos com os nossos (medo, alegria, amor, etc.), criando um vínculo emocional que vai ajudá-lo em seu próprio desenvolvimento e nas relações com outras pessoas.
O fato dos amiguinhos de estimação serem sociais e obedecerem a regras como disciplina e hierarquia da mesma forma que os humanos, pode ajudar essas crianças a compreenderem melhor os valores sociais.
É muito evidente a diminuição da agressividade, melhora da capacidade de aprendizado e melhora da integração com outras pessoas tanto para crianças normais como para as deficientes físicas ou mentais.

A veterinária e psicoterapeuta Hannelore Fuchs há mais de 2 anos um projeto chamado Pet Smile no Hospital da Criança em São Paulo.
Criada nos Estados Unidos, a terapia consiste de modo geral na introdução de um animal doméstico no cotidiano de um indivíduo ou um grupo para propiciar interações físicas, psicossociais e emocionais. "Pode ser um peixe, um cachorrinho ou um coelho" explica a veterinária de São Paulo.
Sua proposta é favorecer o contato entre o animal e a criança ou o idoso para suprir, em parte, a carência emocional e o estresse provocados pela internação. O animal ajuda crianças que tenham dificuldades de movimento, equilíbrio ou atenção.
Além disso, segundo ela o animal facilita o acesso ao paciente e desvia a atenção do paciente da doença e da dor.
Já foram mais de 1600 visitas sem nenhum acidente registrado, inclusive em UTIs. A Dra. Hannelore desenvolve trabalho semelhante em creches, asilos e no departamento de nefrologia da Unifesp.
Segundo o médico Larry Dossey, consultor de medicina alternativa do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, com todos os avanços da ciência é incrível o que o beijo de um cão pode fazer. Ele acha que os benefícios são tão grandes para a saúde que os bichos deveriam ser 'prescritos' para pessoas doentes. Eles são amigos cheios de amor. E amor como todos sabem só faz bem à saúde.
Pandora é o nome da cadela labradora que trabalha no Hospital Metodista de Riverside em Ohio (EUA). Doce e amiga, ela acompanha o corpo médico em suas visitas aos pacientes da unidade de cuidado intensivo. Segundo os médicos, estar perto do animalzinho, significa poder fazer carinho, esfregar, coçar ou até abraçar o animal, expressando seu carinho e suas emoções, muitas vezes bloqueadas na sociedade moderna principalmente entre os homens.
A escola Refazenda de São Paulo, voltada para crianças portadoras de deficiência tem em seu currículo visitas ao canil cambará onde elas podem brincar em meio a lambidas e gargalhadas com rottweilers e outros cães escolhidos para essas atividades. Segundo a psicóloga e diretora Maria Lucia Pivelli, em casos assim, este é um dos melhores recursos terapêuticos.
Para a psicoterapeuta suíça Ursula Thommen, do Hospital universitário de Basle, a hipoterapia, que é a fisioterapia com o uso de cavalos ajuda mais que outras técnicas pessoas paralisadas, pois além de estimular ao exercício, fortalece a musculatura lombar e do quadril.
A terapeuta Nadine Fosier-Varney usa seu próprio cão em pacientes com mal de Alzheimer e eles correspondem melhor ao tratamento.

Adotar um animal pode preencher um vazio na vida das pessoas. Gente idosa, muitas vezes marginalizada pela própria família, tem no bichinho de estimação a única razão para continuar vivendo. Há inúmeros registros de pessoas que superaram a depressão graças ao convívio com animais. Elas relatam que puderam reduzir a medicação ou parar e que os animais estimulam a sair, conhecer outras pessoas e até ajuda a quebrar o gelo e iniciar um bate-papo.

Pessoas com deficiência visual, tem no cão guia um amigo inseparável que faz as vezes dos olhos mas ajuda a descontrair as pessoas, tornando-se ele próprio um canal de comunicação. Geralmente as pessoas que conversam com os cegos iniciam a conversa perguntando algo sobre o cão. Dizem até que Sigmund Freud levava seu cão Jo-Fi às consultas para provocar maior abertura de seus pacientes.

Para aqueles que se assustam com a possibilidade de animais entrando nos hospitais levando doenças, quero apresentar o resultado de uma pesquisa em um grande hospital da capital inglesa que permite entrada de animais. Simplesmente 100% dos casos de infecção hospitalar eram de germes de origem humana (trazidos por visitantes e pacientes doentes) e nenhum caso de zoonose ocorreu em todo período. Lembramos que quase a totalidade das doenças de cães e gatos não são contagiosas para o ser humano e que é mais fácil pegar uma gripe em um aperto de mão ou uma hepatite nadando em uma piscina do que pegar alguma doença se abraçando com um cãozinho ou gatinho saudável.
Vários estudos recentes, inclusive um com 400 crianças publicado no Jornal da Associação Médica Americana, constata algo que os veterinários sabem há muito tempo: Crianças expostas a animais de estimação tem metade das chances de se tornarem alérgicas.
O mecanismo desta proteção não é bem explicado, mas pode ser pelo efeito das toxinas dos animais promoverem uma forma de vacinação contra alérgenos ambientais. A “teoria da higiene” tem outra explicação: uma criança que vive em um ambiente livre de contaminantes pode reagir em excesso quando se depara com substâncias alérgenas.
Esses remédios em 4 patas tem indicação para várias doenças, podendo colaborar no tratamento desde dor nas costas até obesidade, mas lembre-se: pergunte ao seu médico se algo o impede de ter um animalzinho e consulte o veterinário antes de escolher a raça ideal. Num outro artigo discorremos sobre as características das raças e como escolher o melhor amiguinho.
Quem sugere "trocar seu cachorro por uma criança pobre", em primeiro lugar não conhece os benefícios que um animal pode trazer, em segundo lugar não conhece as verdadeiras razões da pobreza e do abandono das nossas crianças e em terceiro fica muito fácil culpar os animais que não podem se defender, por isso estou aqui falando por eles(os animais).
E você, já brincou com seu bichinho hoje?

*Artigo escrito pelo médico veterinário Sylvio Renato Mehler Elias da Clínica Veterinária Arca de Noé